De moto até Santiago do Chile: um roteiro de 16 dias saindo de Foz do Iguaçu

Uma viagem de aproximadamente 5.000 quilômetros pela Argentina e pelo Chile, com a travessia da Cordilheira dos Andes, tempo para conhecer Santiago, Valparaíso, Viña del Mar e Mendoza, e um planejamento pensado para quem não dispõe de um mês inteiro de férias.

Existem viagens de motocicleta em que o destino é apenas uma parte da experiência. Santiago do Chile é um bom exemplo disso, porque chegar à capital chilena significa percorrer uma boa parte da Argentina, atravessar regiões com paisagens completamente diferentes e, finalmente, cruzar uma das cadeias de montanhas mais impressionantes do planeta. Para quem gosta de estrada, a própria travessia dos Andes já seria motivo suficiente para planejar a viagem.

Entretanto, existe um problema que quase sempre aparece quando começamos a organizar uma aventura desse porte: o tempo disponível. É muito agradável imaginar uma viagem sem calendário, com liberdade para ficar vários dias em cada cidade, mas essa não é a realidade da maioria dos motociclistas. Temos trabalho, compromissos familiares e responsabilidades que nem sempre permitem passar um mês inteiro longe de casa.

Foi pensando nessa realidade que organizei este roteiro de 16 dias, com saída e retorno a Foz do Iguaçu, procurando equilibrar os deslocamentos com as oportunidades de conhecer lugares interessantes. A proposta não é chegar a Santiago o mais rapidamente possível, tampouco transformar a viagem numa maratona de atrações turísticas. O objetivo é aproveitar a estrada, conhecer os principais destinos do percurso e voltar dentro de um prazo que possa ser conciliado com as férias de boa parte das pessoas.

Esse planejamento também não nasceu apenas de pesquisas em mapas. Ao longo de mais de vinte anos viajando de motocicleta pela Argentina, percorri essas estradas quase dez vezes e tive a oportunidade de experimentar diferentes cidades como pontos de parada. As escolhas apresentadas aqui refletem essa experiência: são etapas que funcionaram na prática na grande maioria das minhas viagens, embora cada motociclista deva adaptá-las às suas condições, ao clima e ao ritmo de pilotagem.

Outro ponto: as fotos dos locais turísticos que ilustram esse artigo foram tiradas por mim – ou por companheiros de viagem – no decorrer de mais de vinte anos, então alguns locais podem estar diferentes hoje, mas servem como referência de sua beleza e atrativo turístico.

O que você precisa saber antes de começar

Atenção: lembre-se que os 16 dias deste roteiro são contados a partir da fronteira de Foz do Iguaçu, incluindo o retorno somente até à cidade.

Por quê? Porque cada motociclista tem uma realidade diferente, vive em uma cidade diferente e a distância até Foz irá variar demais, então não faria sentido usar uma cidade qualquer como referência. Portanto não se esqueça: se você mora em outra região do Brasil, precisa acrescentar o tempo necessário para chegar ao ponto de partida e, depois, voltar para casa. Um motociclista que saia de São Paulo, por exemplo, poderá precisar de aproximadamente dois dias em cada sentido, elevando o planejamento total para cerca de 20 dias, dependendo do ritmo escolhido.

Também é importante compreender que as distâncias diárias não são metas que precisam ser cumpridas a qualquer custo. O roteiro combina etapas de aproximadamente 600 a 700 quilômetros, destinadas principalmente ao deslocamento, com dias mais curtos e períodos reservados ao turismo. Essa alternância é intencional: permite avançar quando a estrada exige e desacelerar quando aparecem as montanhas, os mirantes, as vinícolas e as cidades que justificam a viagem.

O percurso principal soma aproximadamente 5.000 quilômetros, sem considerar todos os deslocamentos urbanos, desvios turísticos e eventuais alterações de caminho. A distância final dependerá das estradas escolhidas, da localização das hospedagens e dos passeios acrescentados ao planejamento.

Roteiro completo: 16 dias entre Foz do Iguaçu e Santiago

DiaPercurso ou programaçãoDistância de referênciaPernoite
1Foz do Iguaçu → Resistência635 kmResistência
2Resistência → Santa Fé545 kmSanta Fé
3Santa Fé → San Luis625 kmSan Luis
4San Luis → Mendoza260 kmMendoza
5Mendoza → Santiago, pelos Andes360 kmSantiago
6Turismo em SantiagoLocalSantiago
7Turismo em SantiagoLocalSantiago
8Turismo em SantiagoLocalSantiago
9Valparaíso e Viña del Mar250–300 kmSantiago
10Santiago → Mendoza360 kmMendoza
11Turismo e vinícolas em MendozaLocalMendoza
12Mendoza → San Luis260 kmSan Luis
13San Luis → Rosário610 kmRosário
14Rosário → Resistência711 kmResistência
15Resistência → Foz do Iguaçu635 kmFoz do Iguaçu
16Dia reserva para imprevistosFlexívelConforme a necessidade

Distância principal estimada: 5.001 quilômetros, considerando os deslocamentos entre as cidades de pernoite e sem somar todos os passeios turísticos.

A programação foi distribuída de maneira que as principais atrações possam ser conhecidas sem a necessidade de pilotar grandes distâncias todos os dias. É possível alterar algumas paradas, permanecer mais tempo em determinada cidade ou substituir um passeio por outro, desde que essas mudanças sejam compatíveis com o calendário disponível.

Abastecimento: uma precaução que faz diferença

Antes de detalhar as etapas, vale explicar uma prática que adoto nas minhas viagens pela Argentina: sempre que possível, procuro abastecer a cada 150 ou 200 quilômetros, mesmo que a motocicleta ainda tenha autonomia para seguir adiante. Não considero uma boa estratégia deixar o combustível chegar próximo da reserva para começar a procurar um posto, especialmente quando atravessamos regiões pouco povoadas ou não conhecemos as condições de abastecimento do caminho.

As cidades indicadas ao longo deste roteiro servem como referências geográficas para organizar as paradas. Isso não significa que seja necessário abastecer em todas elas, nem que exista um posto disponível exatamente no trajeto escolhido pelo navegador. Antes de depender de determinado local, confirme se há abastecimento em funcionamento, levando em conta a autonomia real da motocicleta e eventuais desvios.

Costumo aproveitar essas paradas também para beber água, fazer uma pequena refeição, movimentar as pernas e verificar se está tudo bem com a moto. Em uma viagem com vários dias consecutivos de pilotagem, essa rotina ajuda a controlar o cansaço e torna os deslocamentos mais agradáveis.

A ida: de Foz do Iguaçu até Santiago

Dia 1 — Foz do Iguaçu a Resistência: o início da viagem pela Argentina

Distância aproximada: 635 km
Saída sugerida: 6h30
Pernoite: Resistência

O primeiro dia começa com a travessia da fronteira na região de Puerto Iguazú e segue por Misiones, passando pela região de Posadas e Corrientes até alcançar Resistência, capital da província do Chaco. É uma etapa relativamente longa, principalmente porque inclui procedimentos fronteiriços, e por isso prefiro iniciá-la cedo, evitando acrescentar compromissos turísticos que possam atrasar a chegada, mas, principalmente, visando fugir de filas na aduana argentina (principalmente durante a temporada). Se tiver disposição, saia até mais cedo, já que a aduana argentina funciona 24h nesse ponto.

Ao longo do caminho, a paisagem começa a revelar algumas das características que tornam essa viagem tão interessante. A vegetação de Misiones vai cedendo espaço a regiões mais abertas, enquanto as condições de temperatura e umidade podem mudar consideravelmente. Dependendo da época do ano, especialmente durante o verão, o calor merece tanta atenção quanto a distância percorrida, tornando importantes as paradas para hidratação e descanso.

Eldorado, Posadas, Ituzaingó e Corrientes são referências úteis para organizar os abastecimentos, mas as paradas devem ser escolhidas conforme a autonomia da motocicleta. A travessia do Rio Paraná pelo Puente General Manuel Belgrano, que liga Corrientes a Resistência, marca a aproximação do destino do dia.

Minha recomendação é encarar essa primeira etapa como uma jornada de adaptação. O objetivo não é chegar o mais cedo possível, mas entrar no ritmo da viagem, resolver os procedimentos de fronteira sem ansiedade e encerrar o dia em condições de descansar adequadamente.

Dia 2 — Resistência a Santa Fé: as grandes planícies argentinas

Distância aproximada: 545 km
Saída sugerida: 7h
Pernoite: Santa Fé

O segundo dia é dedicado ao deslocamento pela RN11, em direção ao sul. A estrada atravessa uma região predominantemente plana, com pequenas e médias cidades distribuídas ao longo do percurso, oferecendo uma amostra da paisagem do norte da província de Santa Fé. Embora não seja um trecho conhecido por grandes atrações turísticas, ele permite avançar bastante na viagem sem exigir uma jornada tão longa quanto a do primeiro dia.

Florencia, Reconquista, Vera e San Justo são algumas das localidades que podem servir como referência para as paradas de combustível. Como sempre, vale conferir o trajeto efetivamente escolhido e distribuir os abastecimentos de acordo com a autonomia da moto, aproveitando os intervalos para descansar e se hidratar.

É uma estrada que exige atenção constante, principalmente nas ultrapassagens. O fato de a paisagem ser plana e aparentemente simples não significa que a pilotagem possa ser feita de maneira displicente, sobretudo nos trechos com circulação de caminhões. A melhor estratégia é manter um ritmo regular, sem pressa, e chegar a Santa Fé com tempo para jantar e descansar antes da próxima etapa.

Dia 3 — Santa Fé a San Luis: um dos grandes deslocamentos da ida

Distância aproximada: 625 km
Saída sugerida: 6h30
Pernoite: San Luis

Este é um dos dias em que a estrada ocupa praticamente toda a programação. Saindo de Santa Fé, seguimos em direção à província de San Luis, aproximando-nos gradualmente de Mendoza e da Cordilheira dos Andes. Dependendo do caminho escolhido, o percurso pode passar pelas regiões de San Francisco, Córdoba, Río Cuarto e Villa Mercedes, com algumas variações possíveis entre os corredores rodoviários.

Como existem alternativas de traçado, é importante conferir o roteiro antes de aceitar qualquer mudança sugerida automaticamente pelo aplicativo de navegação. Um caminho aparentemente semelhante pode acrescentar quilômetros, incluir desvios urbanos ou alterar bastante o tempo previsto para a viagem. Para os abastecimentos, vale utilizar como referência as cidades encontradas no corredor efetivamente selecionado.

Não costumo programar grandes passeios em etapas como esta, porque prefiro reservar energia para os dias em que haverá mais oportunidades de turismo. Saio cedo, faço pausas regulares e procuro chegar ao hotel antes de escurecer, sem transformar o cumprimento do horário numa obrigação.

Dia 4 — San Luis a Mendoza: hora de desacelerar

Distância aproximada: 260 km
Saída sugerida: 8h
Pernoite: Mendoza

Depois de três dias de deslocamento, finalmente temos uma etapa curta. A ligação entre San Luis e Mendoza utiliza principalmente o corredor da RN7 e permite chegar ao destino ainda no início da tarde, deixando tempo suficiente para descansar, organizar a bagagem e preparar a motocicleta para a travessia dos Andes.

Mendoza oferece atrações que mereceriam vários dias de visita, mas, neste roteiro, a cidade será explorada com mais calma durante a volta. Na ida, minha preferência é aproveitar a tarde livre para conhecer os arredores do hotel, fazer uma boa refeição e verificar se todos os equipamentos estão preparados para enfrentar as condições de alta montanha.

Esse cuidado é importante porque a temperatura encontrada em Mendoza não serve como referência para o que poderá acontecer na Cordilheira. Mesmo em um dia quente na cidade, é possível encontrar frio intenso e mudanças rápidas nas condições meteorológicas durante a travessia. Por isso, recomendo separar antecipadamente as roupas de proteção térmica e impermeáveis, completar o tanque e consultar os comunicados oficiais sobre o funcionamento da passagem internacional antes de dormir.

Dia 5 — Mendoza a Santiago: a travessia da Cordilheira dos Andes

Distância aproximada: 360 km
Saída sugerida: 6h30, desde que a passagem esteja aberta
Pernoite: Santiago do Chile

Chegamos ao dia que, para muitos motociclistas, representa o grande momento da viagem. A ligação entre Mendoza e Santiago atravessa a Cordilheira dos Andes por uma região de montanhas impressionantes, utilizando a RN7 argentina, o Sistema Integrado Cristo Redentor e, já no Chile, a Ruta 60. Embora a distância não seja grande, a quantidade de atrações naturais e o tempo necessário para os procedimentos fronteiriços fazem desta uma etapa que merece praticamente o dia inteiro.

Saindo de Mendoza, uma das primeiras paisagens que justificam uma parada é a região do Dique Potrerillos, onde a água do reservatório contrasta com as montanhas. Mais adiante, Uspallata é uma boa referência para descansar e, dependendo da autonomia da motocicleta, completar o combustível antes de continuar a subida.

O Puente del Inca é outra parada que considero muito interessante. Suas formações naturais e cores características fazem do lugar um dos cartões-postais do lado argentino da Cordilheira, e uma visita relativamente rápida já permite observar e fotografar a paisagem. Nas proximidades também estão os pontos de observação do Aconcágua, a montanha mais alta das Américas, que pode ser admirada a partir de áreas acessíveis sem a necessidade de realizar caminhadas prolongadas.

Essa escolha é intencional. Estamos fazendo uma viagem de motocicleta, com roupas e equipamentos que não são exatamente os mais confortáveis para percorrer trilhas durante várias horas. Quem desejar incluir um trekking poderá organizar uma programação específica, mas, para este roteiro, a proposta é aproveitar os mirantes acessíveis e continuar a travessia.

Los Caracoles: uma das estradas mais famosas dos Andes

Depois dos procedimentos internacionais, a descida pelo lado chileno reserva outra experiência marcante: Los Caracoles, a famosa sequência de curvas fechadas que serpenteiam pela montanha. É uma estrada impressionante tanto pela engenharia quanto pela paisagem, mas que exige concentração, controle de velocidade e atenção especial à circulação de outros veículos.

A região da Curva 17 é uma referência conhecida para quem deseja fotografar a sequência de curvas, desde que seja possível encontrar um local seguro e permitido para parar. Não recomendo improvisar estacionamentos dentro das curvas ou em pontos que prejudiquem a visibilidade de outros motoristas. Em lugares como esse, a fotografia precisa ser consequência de uma parada segura, nunca o motivo para assumir um risco desnecessário.

A fronteira determina o ritmo do dia

O Sistema Integrado Cristo Redentor está sujeito a alterações de funcionamento por causa do tempo e das condições da rodovia. Mesmo durante os períodos de operação contínua, nevascas, vento e outros fatores podem provocar restrições ou fechamentos temporários, razão pela qual é indispensável consultar os canais oficiais na véspera e novamente antes de sair de Mendoza.

Também é importante lembrar que a entrada no Chile envolve controles sanitários. O Serviço Agrícola e Pecuário chileno, conhecido como SAG, exige a declaração dos produtos de origem animal ou vegetal transportados pelo viajante, inclusive quando estão na bagagem da motocicleta. Esse procedimento deve ser tratado com atenção e antecedência (eu adoto como regra não transportar nada que não seja industrializado – e ainda lacrado – ao cruzar fronteiras, assim simplifico a minha travessia).

Minha recomendação para esse dia é simples: não marque compromissos com horário rígido em Santiago. A travessia dos Andes merece ser aproveitada com calma, a quantidade de atrações (Puente del Inca, Aconcágua, Portillo, além dos Caracoles, etc.) e o clima ditam sua duração e depende de fatores que não estão sob nosso controle. Se houver atrasos, o melhor é adaptar a programação, sem permitir que a pressa comprometa a segurança.

Santiago do Chile: quatro dias para conhecer a capital e o litoral

Dias 6, 7 e 8 — Descobrindo Santiago sem pressa

Depois de cinco dias de estrada, chegou o momento de deixar a motocicleta estacionada e conhecer Santiago. Reservamos três dias inteiros para a capital chilena, um intervalo que permite visitar seus principais atrativos, conhecer bairros interessantes e aproveitar a gastronomia sem a necessidade de transformar cada passeio numa corrida contra o relógio.

Minha sugestão é dividir as visitas por regiões e escolher os lugares que realmente despertam seu interesse. Santiago reúne atrações históricas, mirantes, parques, museus e experiências gastronômicas, mas não faz sentido tentar conhecer tudo apenas porque determinado lugar aparece numa lista de recomendações. O ideal é usar o tempo disponível para aproveitar bem aquilo que você escolher.

Centro histórico e Cerro Santa Lucía

Uma boa maneira de começar é explorar o centro histórico, visitando os arredores do Palácio La Moneda, a Plaza de Armas e a Catedral Metropolitana. Essas atrações ficam em uma região que permite caminhar e conhecer parte importante da história da cidade, sem a necessidade de dedicar um dia inteiro a deslocamentos entre pontos distantes.

O Cerro Santa Lucía também merece entrar na programação. Seus jardins, escadarias, monumentos e mirantes oferecem uma experiência diferente em meio à área central, permitindo observar a cidade de outro ângulo. Dependendo do ritmo da visita, é possível combinar esses lugares em um mesmo período do dia e reservar a tarde para outras atrações.

Cerro San Cristóbal e Sky Costanera: escolha um dia de boa visibilidade

Entre os passeios que recomendo especialmente para quem gosta de paisagens, está o Cerro San Cristóbal, de onde se pode observar Santiago com a Cordilheira dos Andes ao fundo. O passeio pode incluir funicular e teleférico, conforme a operação e a modalidade escolhida, e vale reservar algumas horas para aproveitar a experiência sem pressa.

O Sky Costanera também oferece uma vista impressionante da capital, mas aqui faço uma recomendação baseada numa experiência pessoal. Na ocasião em que visitei o mirante, o tempo estava nublado e a visibilidade ficou muito abaixo do que eu esperava. Saí bastante decepcionado, principalmente porque havia criado uma expectativa enorme em relação à paisagem.

Por isso, não considero uma boa ideia comprar o ingresso sem observar as condições do tempo. Se o céu estiver encoberto, prefiro deixar o passeio para outro momento e aproveitar uma atração que não dependa tanto da visibilidade. Em dias claros, ou mesmo numa noite sem nuvens, a experiência pode ser completamente diferente.

Mercado Central, Bellavista e gastronomia

O Mercado Central é uma opção para quem deseja conhecer um ambiente tradicional e experimentar frutos do mar, enquanto o Barrio Bellavista reúne restaurantes, bares e uma vida noturna bastante movimentada. São lugares que oferecem experiências distintas e podem ser distribuídos pela programação conforme o interesse de cada viajante.

No Bellavista, prefiro reservar o final da tarde ou a noite, quando já não existe nenhum compromisso de pilotagem. É uma oportunidade de jantar com tranquilidade e aproveitar a cidade sem se preocupar com os horários de deslocamento.

Como em qualquer região turística movimentada de uma grande capital, vale manter atenção aos objetos pessoais, especialmente celular, carteira e documentos. São cuidados simples que não devem comprometer o passeio, mas fazem parte de uma viagem bem organizada.

Concha y Toro: uma experiência para os apreciadores de vinho

Quem gosta de vinhos pode reservar parte de um dia para conhecer a Concha y Toro, localizada em Pirque, na região metropolitana de Santiago. Além das degustações oferecidas em determinadas modalidades de visita, o passeio permite conhecer jardins, instalações históricas e a experiência associada ao famoso Casillero del Diablo.

Como existem diferentes opções de visita, a duração e o conteúdo variam conforme o tour escolhido. Considerando o deslocamento desde Santiago, recomendo reservar aproximadamente quatro a cinco horas para essa programação e fazer a reserva com antecedência.

Se houver degustação de bebidas alcoólicas, a melhor alternativa é utilizar transporte contratado ou outro meio que dispense a pilotagem. A motocicleta pode ficar descansando no hotel enquanto você aproveita o passeio.

Dia 9 — Valparaíso e Viña del Mar: um encontro com o Oceano Pacífico

Percurso: Santiago → Valparaíso → Viña del Mar → Santiago
Distância aproximada: 250 a 300 km, incluindo deslocamentos locais
Pernoite: Santiago

A proximidade entre Santiago e o litoral permite reservar um dia para conhecer duas cidades bastante diferentes entre si: Valparaíso e Viña del Mar. O trajeto costuma utilizar a Ruta 68 e oferece a oportunidade de trocar temporariamente as paisagens da Cordilheira pelo ambiente portuário e pelas praias do Oceano Pacífico.

Valparaíso tem uma personalidade muito própria, marcada pelos cerros, pelas construções coloridas e pela arte urbana. Minha sugestão é concentrar a visita nos Cerros Alegre e Concepción, onde vale caminhar sem pressa, observar a arquitetura e aproveitar as oportunidades de fotografia. Os tradicionais ascensores também fazem parte da identidade da cidade, mas não vejo vantagem em comprometer boa parte do dia esperando em filas muito longas, especialmente quando ainda temos outro destino pela frente.

Para quem gosta de literatura e história, La Sebastiana, uma das casas-museu de Pablo Neruda, é uma possibilidade interessante. Entretanto, a visita exige tempo e deve ser considerada opcional, dependendo da programação escolhida para o restante do dia.

Depois de Valparaíso, seguimos para Viña del Mar, que apresenta uma atmosfera litorânea diferente, com avenidas, jardins e praias. O conhecido Relógio de Flores é uma parada fotográfica rápida, enquanto a orla merece algum tempo para apreciar a paisagem do Pacífico. O Castillo Wulff também pode render boas fotografias, mas eu o deixaria como alternativa caso sobre tempo.

A proposta não é conhecer profundamente as duas cidades em apenas um dia, porque isso exigiria uma programação muito mais extensa. O objetivo é ter uma boa primeira experiência, escolher alguns dos locais mais interessantes e retornar a Santiago no fim da tarde, sem transformar o passeio numa sequência cansativa de deslocamentos.

A volta: dos Andes ao interior argentino

Dia 10 — Santiago a Mendoza: uma nova perspectiva da Cordilheira

Distância aproximada: 360 km
Saída sugerida: 7h
Pernoite: Mendoza

A viagem de volta começa com uma nova travessia da Cordilheira dos Andes, agora no sentido contrário ao da chegada ao Chile. Embora seja o mesmo corredor rodoviário, a perspectiva das montanhas muda bastante, permitindo observar paisagens e detalhes que talvez tenham passado despercebidos durante a ida.

Não considero necessário repetir todas as paradas turísticas, principalmente porque a prioridade é atravessar a fronteira com tranquilidade e chegar a Mendoza. Ainda assim, vale aproveitar alguma oportunidade de fotografia ou descanso, desde que o funcionamento da passagem internacional e as condições meteorológicas permitam.

Saia de Santiago com o tanque cheio e organize os abastecimentos considerando a região de Los Andes, no lado chileno, e Uspallata, já na Argentina. Mais importante do que cumprir um horário exato de chegada é manter uma margem de tempo confortável para os procedimentos fronteiriços.

Um cuidado essencial: não presuma que a passagem estará nas mesmas condições encontradas alguns dias antes. A situação meteorológica pode mudar rapidamente em alta montanha, e o funcionamento do Sistema Cristo Redentor deve ser verificado novamente antes de iniciar o deslocamento.

Dia 11 — Mendoza: um dia dedicado à cultura do vinho

Programação: turismo regional
Pernoite: Mendoza

Mendoza está entre os destinos mais conhecidos da América do Sul quando o assunto é vinho, e considero que essa é uma das experiências que merecem espaço no planejamento. Depois de vários dias de estrada e da travessia dos Andes, dedicar um dia inteiro à gastronomia e à cultura vinícola é uma maneira agradável de desacelerar antes de iniciar os deslocamentos mais longos do retorno.

Minha preferência é conhecer a região de Luján de Cuyo, onde existem diversas vinícolas e experiências organizadas para visitantes. Entre as opções disponíveis estão circuitos que combinam visitas, degustações e um almoço harmonizado, permitindo conhecer diferentes estabelecimentos ao longo do dia. A quantidade de paradas e os serviços incluídos variam conforme o operador e o pacote contratado, por isso vale conferir todos os detalhes antes de reservar.

Não é necessariamente um passeio barato, mas pode ser uma das experiências mais marcantes da viagem para quem aprecia bons vinhos e gastronomia. Recomendo contratar um circuito com transporte, especialmente se houver degustações, para que ninguém precise pilotar depois de consumir bebidas alcoólicas. Quando fiz o tour de um dia + almoço, o custo era de U$ 280 por pessoa. E sim, todos achamos caro (éramos quatro pessoas) mas ponderamos que era um passeio que não iria se repetir todo mês, era algo que poderia ser único em nossas vidas (e no meu caso, foi, ao menos lá em Mendoza e até hoje).

Ah! Você deve querer saber se valeu a pena, né? Bom, ao final do dia pagamos o preço combinado e ainda demos U$ 20 cada um de gorjeta para a guia turística que nos acompanhou, dada a qualidade excepcional do passeio/experiência. Mas deixo a observação: não é um passeio que atende a todos os gostos, só vale realmente se você gosta da cultura vinícola, vinhos e gastronomia. Caso contrário, faça um tour com preços mais acessíveis que irá te satisfazer também.

Quem não tiver interesse especial por vinhos encontrará outras possibilidades em Mendoza, como o Parque General San Martín, o Cerro de la Gloria, a Plaza Independencia e a Peatonal Sarmiento, onde há cafés, restaurantes e comércio. Outra alternativa são as Termas de Cacheuta, que podem ocupar boa parte do dia e, portanto, não devem ser acrescentadas a um roteiro já preenchido por um circuito completo de vinícolas.

A escolha depende do perfil de cada motociclista. O importante é definir uma experiência principal e aproveitá-la sem a preocupação de cumprir uma lista extensa de atrações.

Sobre a compra de vinhos

Uma dica: nem sempre – quase nunca – os preços de vinhos, direto nas vinícolas é o mais barato. Normalmente os vinhos de “base” (os mais simples) têm preço melhor nos supermercados da região. Os mais exclusivos, esses sim costumam ter melhor preço na vinícola.

Outro ponto, ouço muito as pessoas dizerem “eu não sei qual é o vinho bom” ou “vinho pra mim é tudo igual” e aí desanimam de conhecer vinícolas. Eu aprendi uma coisa repetida por todo bom sommelier: vinho bom é aquele do qual você gosta. Não tenha pudores, vergonha ou qualquer coisa assim por gostar de um vinho “menos sofisticado” (ou mais barato), respeite o seu gosto e o seu bolso, e abra seus horizontes.

Eu sei que compra de vinhos é algo delicado quando você está de moto, além da óbvia falta de espaço pra transporte, tem o problema do vinho ficar sacudindo por centenas de quilômetros e a variação de temperatura que ele irá sofre. O que eu aprendi a fazer que “minimiza” esses problemas: anotar o nome dos vinhos que gostei e comprar direto num dos supermercados que existem em Resistência – o que eu usava fechou (era o Hipermercado Libertad Resistencia), e na próxima viagem testarei o Supermercado La Anónima (a menos de 2km da Ruta 16 AQUI). Ele fica quase à beira da pista e a pouco mais de 630km do Brasil.

Ah! E compro uns dois metros de plástico bolha – lá mesmo no mercado tem papelarias (ou tinha), assim eu enrolo os vinhos e posso “socar” eles no fundo dos baús, na foto acima está minha compra média de vinhos “simples”. E nunca tive problema nenhum na alfândega brasileira.

Legislação: “Você pode trazer da Argentina ao Brasil, por via terrestre, 12 litros de bebidas alcoólicas por viajante maior de 18 anos. Se forem apenas vinhos em garrafas de 750 ml, isso equivale a 16 garrafas por adulto.” Aconselho que leia os procedimentos de bagagem na Portaria MF nº 440/2010, art. 7º, § 1º, inciso I e regulamentados também pela Instrução Normativa RFB nº 1.059/2010.

Dia 12 — Mendoza a San Luis: uma etapa para recuperar o ritmo

Distância aproximada: 260 km
Saída sugerida: 8h
Pernoite: San Luis

Depois do dia dedicado ao turismo em Mendoza, retomamos a RN7 em direção a San Luis. A distância é pequena em comparação com outras etapas do roteiro, o que permite sair sem tanta pressa e chegar ao destino ainda com boa parte da tarde disponível.

Costumo aproveitar dias como esse para organizar a bagagem, conferir as condições da motocicleta e descansar antes das jornadas mais longas. A região de La Paz pode servir como referência para uma pausa intermediária, dependendo da autonomia, mas o percurso não exige uma programação complexa de abastecimento.

É tentador preencher qualquer tarde livre com mais uma atração, porém nem sempre essa é a melhor escolha. Em uma viagem de vários dias consecutivos, descansar adequadamente também faz parte do planejamento, principalmente quando sabemos que a próxima etapa terá uma quilometragem consideravelmente maior.

Dia 13 — San Luis a Rosário: um caminho diferente na volta

Distância aproximada: 610 km
Saída sugerida: 6h30
Pernoite: Rosário

Na volta, a proposta é utilizar Rosário como cidade de pernoite, em vez de repetir Santa Fé. Essa escolha permite variar parcialmente o trajeto e conhecer outra importante cidade argentina, mesmo que o tempo disponível não seja suficiente para uma visita turística mais extensa.

O percurso pode passar pelas regiões de Villa Mercedes, Río Cuarto e Venado Tuerto, utilizando corredores como a RN8 e seus acessos, conforme o caminho selecionado. Essas localidades também oferecem referências para organizar as paradas de abastecimento, sempre considerando a distância efetivamente percorrida e a autonomia da motocicleta.

Rosário possui grande importância econômica e cultural, mas, depois de mais de 600 quilômetros de estrada, minha prioridade seria chegar ao hotel, descansar e aproveitar a noite. Se ainda houver tempo e disposição, uma breve visita à região do Monumento Nacional à Bandeira pode ser interessante, desde que não comprometa o descanso necessário para o dia seguinte.

Dia 14 — Rosário a Resistência: uma das etapas mais exigentes

Distância aproximada: 711 km
Saída sugerida: 6h
Pernoite: Resistência

Este é um dos deslocamentos mais longos de todo o roteiro e merece atenção especial. Saindo de Rosário, seguimos em direção ao norte argentino, utilizando o corredor da RN11 e passando pela região de Santa Fé antes de avançar novamente em direção a Resistência.

A extensão da etapa exige disciplina na organização das paradas, mas isso não significa pilotar por horas sem descanso para economizar alguns minutos. Pelo contrário: em dias longos, procuro manter um ritmo constante e fazer pausas regulares, evitando que o cansaço se acumule silenciosamente ao longo da jornada.

Santa Fé, San Justo, Vera, Reconquista e Florencia são algumas das referências de localidades existentes no corredor, mas não precisam ser utilizadas como uma sequência obrigatória de abastecimentos. A escolha deve considerar a autonomia real da moto, a disponibilidade de combustível e as condições do dia.

Se o tempo estiver desfavorável, surgir algum problema mecânico ou o cansaço comprometer a pilotagem, é importante ter disposição para alterar a programação. A distância prevista é uma referência de planejamento, não uma obrigação que justifique assumir riscos.

Dia 15 — Resistência a Foz do Iguaçu: o encerramento do roteiro internacional

Distância aproximada: 635 km
Saída sugerida: 6h30
Destino: Foz do Iguaçu

A última etapa de deslocamento retorna pela região de Corrientes, Posadas e Misiones, até a fronteira brasileira. É um caminho semelhante ao percorrido no primeiro dia, agora no sentido contrário, oferecendo a oportunidade de observar novamente paisagens que talvez tenham passado despercebidas no começo da viagem.

Assim como na ida, Corrientes, Ituzaingó, Posadas e Eldorado podem ser utilizadas como referências para organizar os abastecimentos. Também é importante reservar uma margem de tempo para os procedimentos fronteiriços e evitar compromissos com horário muito rígido no fim do dia.

Ao chegar a Foz do Iguaçu, estará concluído o percurso internacional deste planejamento. Entretanto, quem ainda precisa seguir para outra cidade brasileira deve lembrar que o encerramento do roteiro não significa necessariamente o fim da viagem. É preciso considerar os dias adicionais de retorno à residência, principalmente depois de duas semanas de deslocamentos e passeios.

Dia 16 — O dia reserva: a margem de segurança da viagem

O último dia do planejamento não está reservado para uma atração específica nem precisa ser utilizado obrigatoriamente depois da chegada a Foz. Ele funciona como uma margem de segurança que acompanha o viajante durante todo o percurso e pode ser utilizado no momento em que surgir alguma necessidade.

Essa reserva é especialmente importante por causa das duas travessias da Cordilheira dos Andes, que podem sofrer atrasos ou interrupções decorrentes das condições meteorológicas. Entretanto, o dia também poderá ser útil diante de um contratempo mecânico, uma mudança de roteiro, uma indisposição física ou qualquer outro acontecimento que justifique reduzir o ritmo.

Se a viagem transcorrer normalmente e nenhuma alteração for necessária, você poderá aproveitar o tempo extra para descansar ou prolongar uma estadia. O que não recomendo é comprometer antecipadamente essa margem com mais uma atração obrigatória, porque isso eliminaria justamente a flexibilidade que procuramos preservar.

É preferível terminar a viagem com um dia de sobra do que descobrir, no meio dos Andes, que o planejamento não admite nenhum atraso. Isso é particularmente útil para quem não pode se ausentar por muito tempo de casa, trabalho, etc. Nem todos temos trinta dias de férias, ou podemos atrasar para nosso retorno, então use esse dia extra para evitar isso.

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