Motociclista Até Embaixo D Água, publicada na Moto Adventure Ed. nr° 96

Andar de moto é quase sempre muito prazeroso. Quase, porque em circunstâncias como chuva, a viagem pode passar de um simples inconveniente para um desastre total, em uma fração de segundo. Selecionamos vários aspectos da pilotagem com chuva para lhe oferecer um guia de procedimentos que possibilite uma melhor preparação para essa circunstância.

Antes de sair

Ao planejar sua viagem, busque informações meteorológicas a respeito do trajeto que pretende cumprir. Independente da previsão, prepare-se para a possibilidade de encontrar em algum instante tempo ruim.

Ao arrumar a bagagem, certifique-se de acomodá-la de forma que possa ficar seca. Um bom truque é usar sacolas plásticas para envolver roupas, documentos, aparelhos eletrônicos e tudo mais que de alguma forma possa ser danificado pela água. Acondicione a roupa de chuva de maneira a ter fácil acesso a ela em caso de necessidade.

Inspecione adequadamente a moto – dê especial atenção às luzes e estado dos pneus.

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Roupas & acessórios

Existe no mercado uma infinidade de marcas e modelos de roupas motociclísticas construídas para essa finalidade. As melhores normalmente também são as mais caras, e nem sempre cumprem integralmente a tarefa de isolar-nos da água. Uma solução que tem se mostrado eficiente é a duplicação de roupas com essas características – uma boa roupa de cordura a prova d água embaixo, e um macacão de chuva simples, de material mais fino como nylon, por cima. Cores claras ou chamativas para essas peças são indicadas. Se tiver que parar na estrada para colocar as roupas, escolha um lugar seguro fora da trajetória de outros veículos. Lembre-se que a visão deles também está restringida.

Para as mãos, uma alternativa barata às luvas impermeáveis é usar luvas cirúrgicas de látex por baixo. São baratas e podem ser encontradas em qualquer farmácia, além de não ocuparem muito espaço. Elas oferecem bom isolamento da água e tiram muito pouco da sensibilidade natural.

Os pés também são problemáticos na chuva por receberem uma quantidade significativa de água, principalmente pela proximidade com que se encontram em relação ao solo. Mesmo as botas completamente impermeáveis acabam permitindo alguma umidade, por isso outras formas de complementar o isolamento podem ser aplicadas. Uma alternativa são as galochas ou polainas que se põem por cima das botas, mas tem o inconveniente de prejudicar um pouco a parte operacional, por conta do excesso de material e a maneira de se fixarem ao calçado. Outra maneira de contornar esse problema é o uso de sacolas plásticas para envolver os pés, mas esse método também tem seus inconvenientes, uma vez que não permite uma ventilação adequada.

Independente do método, é essencial proporcionar conforto suficiente para que se possa manter atenção total na pilotagem. Nada é pior que ter que prestar atenção em uma atividade, e ser distraído por outra – nesse caso a chuva e o frio molhando regiões sensíveis.

Para a cabeça, existem poucas soluções – alguns capuzes podem ser utilizados embaixo do capacete para manter uma temperatura agradável, mas a não ser que sejam de neoprene, não isolarão a água. Lembre-se de colocar o capacete em lugar bem arejado para secar após pegar uma chuva – permitir que fique muito tempo úmido, acaba gerando um odor desagradável, além de diminuir a vida útil.

Visibilidade

A chuva não afeta apenas a dirigibilidade, também afeta bastante a visibilidade. Quando possível e viável, utilize produtos anti-embaçantes para a viseira na parte interna, e repelente de água para a parte externa. Caso não seja possível, abra uma fresta da viseira para aumentar o fluxo de ar dentro do capacete, evitando assim o embaçamento. Não permita que uma abertura exagerada da mesma exponha sua linha de visão à água e ao vento. Evite transitar muito próximo de outros veículos, pois eles levantam a água em forma de spray, dificultando ainda mais a visão.

Características do pavimento

Diferentes tipos de pavimento oferecem diferentes tipos de aderência quando molhados. O asfalto tem características distintas em diferentes fases da chuva – em seu início, tem a menor aderência pela quantidade de água ainda não ser suficiente para lavar e escoar do piso a sujeira acumulada. O mesmo, mas em menor grau, acontece no fim da chuva quando os veículos novamente começam a depositar sujeira no asfalto. Em termos de aderência, a melhor escolha é quando está efetivamente chovendo, por ter que lidar apenas com o asfalto limpo e água.

Escolha para passar sempre aonde parecer mais opaco invés de brilhante – superfícies reflexivas tendem a ser também escorregadias. Opte também por caminhos que aparentarem ser mais claros invés dos escuros, pois podem abrigar todo tipo de detritos, mascarados pela tonalidade do asfalto. Nunca é demais lembrar que as faixas de sinalização pintadas no solo são escorregadias, especialmente na chuva. Evite fazer curvas e frear sobre elas. O mesmo cuidado vale para tampas de esgoto e placas metálicas usadas para tampar algumas obras.

Fique atento para rajadas de vento principalmente presentes nas chuvas de verão. Além de dificultarem a pilotagem por exigir correções a todo o momento, corre-se o risco de que tragam para a pista todo tipo de sujeira, inclusive vegetação. Acúmulos de água são particularmente perigosos, porque podem esconder buracos ou imperfeições na pista.

Aquaplanagem

A aquaplanagem é um fenômeno de perda de controle da moto associado a uma determinada quantidade de água. Ela acontece quando o volume de água existente entre um dado pneu e o pavimento é superior a capacidade de drenagem desse pneu. Portanto os fatores que influenciam na aquaplanagem são:

  1. Tipo do pneu – forma e profundidade de seus sulcos.
  2. O peso da moto – quanto mais pesada, mais tardiamente tende a aquaplanar.
  3. A velocidade – quanto menor for, mais tempo o pneu incide sobre o pavimento, diminuindo a possibilidade da aquaplanagem.
  4. O volume de água.

Uma coisa interessante sobre aquaplanagem com motos é que normalmente o pneu traseiro aquaplana antes do dianteiro por ser esse passivo, enquanto a roda traseira é ativa em função da tração. Isso quer dizer que na maioria das circunstâncias, o piloto é “avisado” pelo comportamento da moto que a velocidade está excedendo a capacidade que aquele pneu tem de drenar a água. Acontecendo antes com a roda traseira, não se perde o controle com a mesma facilidade com que se perde quando a roda sem controle é a dianteira.

Pneus

Tratando se de pisos escorregadios, os pneus são o item mais importante para a segurança. Tenha certeza de que os seus se encontram em bom estado, e calibrados corretamente.

Motos com propostas diferentes de uso também contarão com diferentes tipos de pneu. As do tipo “off road” normalmente tem sulcos maiores e mais profundos, para que drenem com maior eficiência os detritos. Já as esportivas, que privilegiam uma maior quantidade de borracha em contato com o solo, têm sulcos rasos e em menor quantidade. Isso faz com que esses modelos sejam particularmente perigosos em dias de chuva. As motos do tipo “street” e “custom” se encontram entre elas, oferecendo uma condição mediana.

Pilotagem

Pilotar na chuva não é uma experiência das mais agradáveis, no entanto, pode ser muito educativa. Se houver a possibilidade de parar e esperar por condições melhores, será a solução mais prudente. Não sendo viável, promova uma pilotagem extra-suave, diminuindo a velocidade e redobrando a atenção. Necessitará de maiores distâncias para frear, exigindo que faça um planejamento mais cuidadoso – principalmente com relação a distâncias de outros veículos. De tempos em tempos faça pequenos testes de frenagem usando o freio traseiro. Busque suavemente identificar até aonde pode exercer pressão sem que a roda derrape. Dessa forma pode ter uma razoável idéia de comportamento e distância que necessitará em caso emergencial.

Segure o ímpeto de andar rápido para acabar logo com o “tormento” – é preferível ter paciência e executar toda ação com muita certeza.

As motos de uma maneira geral têm comportamento mais “arisco” em pisos molhados, exigindo bastante sensibilidade e atenção – uma pilotagem delicada e atenciosa normalmente faz com que a experiência possa ser considerada no mínimo exótica.

Como pilotar sob forte chuva aumenta – e muito – o nível de tensão, faça paradas mais freqüentes para relaxar a musculatura contraída e aliviar o stress. Boa viagem!

A Coluna “Trips & Tips” foi publicada mensalmente na Revista Moto Adventure, desde a Edição nr° 91 (jun/08) até a Edição nr° 142 (set/12) com a contribuição do nosso editor Felipe Ribeiro. Estaremos reproduzindo neste espaço todas as matérias publicadas na época e, progressivamente, revisando as informações e as atualizando. Caso você, leitor, encontre alguma informação que se alterou com o passar do tempo, por favor, nos informe AQUI. Nós da equipe TNE agradecemos!

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2017-02-26T21:15:29+00:00 Trips & Tips|