Piloto motocicletas regularmente desde os meus 18 anos (há mais de 27, portanto), sempre gostei muito de viajar de moto e tenho mais de 300.000 km rodados dentro do Brasil, porém, foi só em 2006 que fiz minha primeira viagem internacional (ARG, CHL e UR). E me senti como se estivesse indo viajar de moto pela primeira vez. Com todas as inseguranças e dúvidas de um iniciante.

Hoje, depois de mais de 60.000 km rodados lá fora – entre Argentina, Chile, Uruguai, Peru e Bolívia – posso dizer com toda segurança que viajar de motocicleta para o exterior não é nenhum bicho de sete cabeças, nenhum “ato de heroísmo” (como, aliás, alguns viajantes ainda gostam de fazer parecer). Tá, tudo bem, talvez cruzar a África de cima a baixo ou regiões de conflito, não seja tão simples assim, mas nada que um bom planejamento não resolva.

Conversando sobre isso com alguns amigos, revivi alguns dos meus “temores” de iniciante nas viagens internacionais que, se eu soubesse o que sei hoje, não teriam me preocupado tanto. Alguns deles são:

1)EXISTEM OFICINAS (e lojas) DE MOTO NOS PAÍSES VIZINHOS, SUA ANTA!
Por mais óbvia que a afirmação acima possa parecer, o meu temor de ficar na estrada, com a moto quebrada e num país desconhecido, era tão grande que me fez ignorar isso e levar uma enorme quantidade de peças sobressalentes e ferramentas. Eu diria que quase metade da minha bagagem foi composta dessas peças (ou até mais). Resumo: não usei nada (isso mesmo, N-A-D-A) e só levei as peças e ferramentas para passear.

Hoje racionalizei ao máximo essa questão, respondendo a duas questões simples:

Quais peças, em caso de quebra, me IMOBILIZAM? Por exemplo: se quebrar um pisca eu fico sem condições de seguir viagem até uma próxima cidade? Não, então não levo pisca reserva. E se quebrar um manete de embreagem? Sim, me imobiliza, então tá lá um manete de embreagem reserva na bagagem. E assim por diante.

A outra pergunta é um complemento da primeira: se for uma peça que me imobilize e quebrar, eu sei trocar SOZINHO?  Vou dar outro exemplo, se quebrar a mola da suspensão traseira, me imobiliza? Sim. Eu sei trocar sozinho a mola da suspensão traseira? Não. Então nem adianta levar a peça de reposição.

Isso reduziu as peças de reposição que levo à quase um quarto. E mesmo assim nunca passei um perrengue por falta de peças numa eventual quebra. Quando eu não tinha a peça comigo, adquiri numa loja local e segui viagem.

2)NÃO, VOCÊ NÃO VAI USAR TODAS AS ROUPAS QUE LEVAR!
Essa ainda é uma questão que gera certo transtorno, por mais que eu reduza a minha quantidade de bagagem, eu ainda volto com roupas sem usar. Claro, a cada viagem menos roupas voltam intactas, mas ainda voltam.

E não é porque eu use as roupas sujas ou ande mal vestido, é apenas por uma questão de planejamento. Uso as roupas e vou as acumulando até o dia em que poderei lava-las, seja no próprio hotel (caso ofereça esse serviço), seja em uma lavanderia fora do hotel.

AH! E uma dica de quem, na maioria das vezes, prefere se hospedar em cidades menores e com hotéis também menores, que não oferecem esse serviço: as próprias arrumadeiras desses hotéis podem lavar a sua roupa, pelo preço certo (baixo) e com o pedido feito com charme e o famoso jeitinho brasileiro (e um belo sorriso). #ficaadica

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3)NÃO FALAR A LÍNGUA DO PAÍS NÃO VAI TE DEIXAR EM APUROS
Um dos meus receios era o de não falar absolutamente nada de espanhol e estar indo para países de língua espanhola. Tudo bem, sou fluente em inglês – graças a Deus, ao meu pai (que pagou meus estudos quando criança) e ao meu esforço próprio, mas qual a probabilidade de um(a) atendente, em qualquer hotel de beira de estrada, no interior da Argentina, falar inglês? Também não sei, mas deve ser baixa.

Com um pouco de atenção e esforço de nossa parte, e alguma mímica (pelo menos no início) você consegue sim se comunicar de forma eficiente e, em pouco tempo, está falando também um pouco de “portunhol”. O suficiente para se fazer entender e compreender o que estão falando com você. Só que você tem sim que se esforçar. Não adianta falar em português o tempo inteiro, pelo menos não se você quiser mesmo interagir com a cultural local.

Outra coisa, uma regra de etiqueta em viagens (não fui eu que inventei, juro) diz que o visitante deve se esforçar para falar a língua local, tanto quanto o morador local se esforça para entender você. Lembre como todo mundo aqui acha legal ver um turista gringo falando “Óbregadú” ou “Jóea” e assim por diante? Pois é…

Chegar falando em português normalmente e achar que é obrigação do atendente, garçom, recepcionista, etc.etc.etc… entender você e te atender, é coisa de babaca arrogante. Se não houver outra opção (quando o assunto é urgente, por exemplo) fale em português mesmo, mas pausadamente, muito provavelmente vai dar tudo certo. Eu acho…rs

4)”ARGENTINO NÃO GOSTA DE BRASILEIRO. VAI DAR MERDA”
Em 2006 eu tinha 35 anos, nunca havia viajado para o exterior e meu mundo era do tamanho do Brasil. E só. O que explica – em partes – a minha mente obtusa daquela época. Para mim, algo incomodava demais: argentino não gosta de brasileiro. Some-se a isso minha personalidade: nunca fui de procurar briga, mas também não sou propriamente um monge budista quando sou desrespeitado. Logo: viagem para a Argentina=confusão a vista, certo? Errado, aliás, não podia estar mais errado.

Esse preconceito besta fez com que eu (e todo meu grupo) viajasse o mais low-profile possível, sem chamar muita atenção ou ostentar bandeiras brasileiras. Só que tivemos a mais grata surpresa: fomos muito melhor tratados na Argentina, do que no Chile, por exemplo. Não que os chilenos sejam rudes, apenas são mais “formais” que os argentinos. Fomos tratados como verdadeiros “hermanos”, todos com quem conversávamos demonstravam verdadeiro interesse por nossa viagem, nossa história, etc.  Era costumeiro formarem-se rodinhas de pessoas ao redor das motos quando parávamos para abastecer ou até para pedir informações. Pessoas sorridentes e sempre dispostas a ajudar.

A exceção fica por conta dos porteños (argentinos de Buenos Aires) que realmente foram um pouco mais frios conosco, mas precisamos levar em conta o tamanho da cidade. Duvido que o paulistano seja tão amistoso quanto alguém do interior do estado, por exemplo.

Enfim, a lição aqui – para mim – foi: deixe todos os seus preconceitos em casa, quando for viajar. Viva suas experiências e tire suas próprias conclusões.  SOBRE TUDO!

5)VIAJAR DE MOTO É IGUAL OUTRA VIAGEM DE FÉRIAS QUALQUER, NÃO É?
Não, não é. Pior ou melhor (eu acho melhor) é uma questão de opinião, mas se você está lendo este texto é provável que concorde comigo. Só que uma coisa é indiscutível: viajar de moto é diferente.

Numa viagem de férias tradicional, sua única preocupação é divertir-se, conhecer os pontos turísticos e, eventualmente,seu estresse é não se atrasar para um voo, por exemplo. Numa viagem de moto, você passa 8, 10 até 12 horas (às vezes mais) em cima de uma moto, exposto ao trânsito, intempéries, fome, calor ou frio, etc. , chega a uma determinada cidade, procura hotel (correndo o risco de não achar, como já ocorreu comigo), enfim, está submetido a um estresse constante e diário, por vários dias seguidos.

É divertido? É. E até viciante, eu diria. Mas nem por isso deixa de ter sua dose alta de estresse e nem todo mundo lida bem com o estresse. Então isso acaba se refletindo na maneira com que você vai se relacionar com seus companheiros de viagem.  Brincadeiras “chatinhas” no dia-a-dia, podem se tornar intoleráveis no décimo dia de viagem, por exemplo.

O que eu aprendi com isso foi: diminua o ritmo e, principalmente, a “agressividade” das brincadeiras com seus parceiros de viagem. Mesmo que vocês sejam amigos há décadas e tenham intimidade. Isso evita uma série de aborrecimentos desnecessários. Conheço histórias de grandes amizades que acabaram durante viagens de moto e isso não tem sentido.

Enfim, essas foram as questões que levantamos em nosso bate-papo de fim de tarde. Conversa de boteco que resolvi colocar no “papel” e trazer para vocês. Tenho certeza que você também aprendeu muita coisa com as experiências na estrada, não é? Então conta aqui pra gente, escreve um comentário ou manda um e-mail para nós AQUI, contando seu aprendizado. Valeu e boas estradas!

Autor: Felipe Ribeiro
Fotos: Arquivo Pessoal

 

 

 

 

 

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